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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Felicidade é só questão de ser...


Gosto das coisas simples. Bonitas. Simbólicas.
Gosto da palavra. Do afeto. Da energia.
Gosto dos pedaços, dos minutos, dos segundos. É no fragmento que cabe o mundo inteiro.
Cabe nele o que eu quiser. Quando eu quiser. A opção é minha.
Sempre.
Às vezes, basta um sorriso honesto para fazer a minha alma rir em resposta.
(Tenho uma alma de riso fácil, é verdade)
Ou uma pequena gargalhada, daquele tipo incontrolável.
(Adoro estas!)
É preciso tão pouco para fazer do meu mundo um lugar melhor.
Ainda bem.

Gosto de ter o copo sempre meio cheio.
Gosto de o ver assim. 
De saber que existe o lado bom, e de acreditar nele.
Eu acredito no bom a todo instante.
Não quer dizer que não exista o fracasso, a decepção, a raiva.
A mágoa. 
As frustrações.
Mas tudo tem o peso que damos.
E eu escolho dar pouco peso ao que já pesa demais.
Para o amargo, faço careta e sigo viagem.

Quem dera que no meu/nosso mundo fossem todos assim...


P.S: Hoje descobri a Digo Posters. Foi uma fatia de tempo que me fez feliz.
Gosto de ideias giras, de boa estética, de gente positiva. 
Sei que a palavra tem poder, e aprendi a confiar nela. 
Por isso, escolho bem as que quero guardar. Sei selecionar. E tu?
(Acho que uma casa com posters Digo deve ser um bocadinho mais feliz...
e as quotes do dia também são tuuudo de bom! Para não perder umazinha sequer, basta seguir a página AQUI.)

Um bom "meio de semana", minha gente.














Quotes que são o máximo:






terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Crise de identidade...já?


E pronto...estamos com uma crise de identidade em casa. Já começou há uns tempos, e agora ganhou força. "Mamã, eu sou da cor do chocolate!", soltou ela de riso na cara.  É, Matildinha-Matrioska... #sóquenão. :p

Ainda estou a tentar perceber onde tudo começou, mas a verdade é que a criança tem a certezinha de ter um pézinho em África. E no fundo, até tem mesmo...afinal, tem sangue brasileiro a correr nas veias. Bem, mas a cor é que lhe está a faltar...

A primeira boneca foi uma bebé negra de vestido florido e cabelo crespo preso em dois totós. Foi amor à primeira vista. Até hoje, seguem companheiras. Mais tarde, iniciou a loucura das Barbies, mas nenhuma delas lhe encheu as medidas como a princesa Tiana, da Disney. A Jasmin é outra favorita lá em casa. Dos livros, tem fascínio pelo "Menina bonita do laço de fita", que conta a história de um coelho branco encantado por uma negrinha de lábios vermelhos, e que faz de tudo para escurecer o pelo...desde tomar dúzias de café, a mergulhar numa lata de tinta, culminando na descoberta de que  preto nunca poderia ser. É quando decide que filhos assim é que quer ter, e casa-se com uma coelhinha da cor da noite. Ele passa o livro a perguntar: "menina bonita do laço de fita, como fazes para ter a pele tããão pretinha assim?". Bem, a Matilde anda a querer descobrir. Curiosa, pergunta  porque eu sou branca e ela não (como assimmmm, menina?). Se não fosse o seu ar de faz-de-conta, eu ficaria preocupada. :p

Isto, inevitavelmente, me fez questionar uma série de coisas. Primeira: há produção de material suficiente para mudar as ditaduras de padrão às quais somos bombardeados? Ou apesar de tudo, ainda vivemos num mundo em que se fala com distância das possibilidades que vão para além do padrão imposto? Segunda: Onde começa o preconceito? E terceira: Como inverter a situação e criar outros contextos?
O preconceito começa no berço. Começa nos pais, nos avós, na escola. Começa quando não se oferece o mundo e as suas multifacetas. Quando rejeitamos o diferente, e impomos apenas o que é conhecido por nós. Quando não percebemos aquilo que nos falta, aquilo que podemos desvendar e mostrar. Quando não mudamos. Começa quando dizemos o que é bonito, quando decidimos nós pelo outro. Quando só apresentamos uma boneca de mini saia e saltos altos. Quando dizemos que ela é linda, à uma criança gordinha, de sardas e  caracóis nos cabelos. Ou à magricela que é ruiva, ou à pretinha de rabiosque empinado. Quando lhes apontamos a nossa visão de mundo...é quando apontamos o caminho que os nossos pequenos vão seguir. E por isso, custa crer em quem não quer ampliar e transformar os seus espaços conhecidos e tidos como absolutos. Custa saber que ainda não vamos longe, e que vivemos ciclicamente a repetir o que nos foi dito como verdade, sem questionar e criar mais espaços por onde fazer correr as nossas crianças.

Cresci entre nenucos loirinhos, e outras infinidades do género. Cresci num mundo onde a Disney não tinha a Doutora Brinquedos, e nem os cabelos castanhos da princesa Sofia. Não lembro de muitas  bonecas que não fossem loiras-loiríssimas. Era mais fácil ver uma com cabelos azuis, do que uma pretinha. Ora bem, mas cresci rodeada de livros e músicas, e eram eles que me falavam do mundo. Que faziam chegar imagens diferentes à minha cabeça. Múltiplas! Infindáveis! Sem que saíssem apenas de uma fôrma pré-fabricada. Cresci com pais que me faziam chegar estas ferramentas, e que tinham os preconceitos engavetados, sem nunca os deixar sair (quem não os tem?). Nunca os passaram para mim. Louvados sejam! São espertos os meus pais...já na altura, mediam as palavras para não me moldarem as ideias. Para que eu criasse o meu mundo da forma mais rica e verdadeira possível. E tão grata estou. Educar é também isto: saber mudar o que em nós está mal, e saber passar o que vai para além daquilo que nos foi dado. Preconceito não é herança, minha gente. Não se passa a ninguém, não se deixa como presente. Horizontes sim. Largos...a perder de vista.

Ora, ora, ora...tudo isto para dizer que estou contente. Estou contente por perceber que estou a criar gente. G-E-N-T-E. Estou a pôr fermento na Matilde para que ela enfrente o mundo, para que veja toda a sua beleza. Para que não o sinta como um reflexo seu, mas sim para que possa refletir o que mais gosta dele. Para que tire todo o sumo possível desta aventura que é viver. E que em cada cantinho dele, ela não olhe de lado à nada.  Para que eduque os músculos da testa para não franzirem diante do novo. Para que transpire a vontade de abraçar a tudo e a todos, e para que se sinta parte do que a rodeia. 

A construção da identidade se inicia desde muito cedo, e passa pela compreensão dos factos do dia a dia, pelo reconhecimento de características locais e familiares, pela comparação e pelas referências. Por isso, enriqueça o universo do seu filho. 

(Dito isto, agora vou falar sobre o meu último questionamento, e aquele que mais surpresa me causou:

"Por que raios ainda vivo num mundo onde falar em diferença faz lembrar o preconceito???")





E agora vou ali arranjar maneira de pôr a menina pretinha... :p

O Little M está no Facebook e Instagram (@blog_little_m) 



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Uma carta para ti (II)



Passa pouco da meia-noite. Antes, estaria aqui a escrever um post sobre moda. Muito provavelmente, sobre as roupas que mais me encantam neste "anunciar de Outono". Ou sobre os saldos, não sei. Já não consigo pensar propriamente neste tipo de assunto, que vão -para já- ficando pelo nosso Facebook. 

Antes. Sim, tenho de dividir o tempo entre o antes e o depois do alçar voo da minha menina. Foram quase 27 meses em casa com a minha princesa, o meu amor maior. Mais de 2 anos entregues ao exercício daquilo para o qual fui talhada para ser mesmo, mesmo muito boa. Sem falsas modéstias, porque isto de ter um blog serve exactamente para desaguar a verdade que se sente. E eu sinto assim.

Antes deste tempo de escola, não lembro de adormecer a Matilde antes das 22h. Hoje, com a rotina instalada, às 20h30 reina um silêncio de inverno. Frio, frio, frio. Acabo por sentir saudades da minha grande, a melhor, companheira. Me apanho a dormir num colchão colocado no seu quarto, sem grandes necessidades, mas apenas para matar um bocadinho de saudade da sua presença. O corte,também  para mim, tem sido complicado...doloroso. Saber e sentir que passa mais horas acordada na escola, e não debaixo das minhas asas...dói. Fisicamente mesmo, como disse hoje à querida Tia Cocas, que começa a ensaiar o mesmo bailado. 

Quando engravidei, estava a trabalhar. Quando a Matilde nasceu, tinha acabado de encerrar um contrato, e achamos por bem que eu estivesse com ela por um ano. Um ano que se prolongou...e que me permitiu ser o mais feliz que me lembro. Agora, vejo a minha cria iniciar um bater de asas, e estremeço as minhas para voarmos ao mesmo tempo. 

Ser mãe é a mais bela das tarefas humanas, e que me perdoem os pais. Mãe é um ser capaz de se tornar gigante. Capaz de abrigar o mundo, cegar a dor, e fortalecer a vida. Pai também é, um dia, mais tarde. Mas à parte das discussões de sexo... Sinto-me infinitamente maior, juro, por ser mãe da Matilde. Não imagino uma existência que não fosse a de ser maternalmente responsável. A maternidade define muito de quem eu sou, e pouco consigo lembrar da vida independente de não-mãe.  Sou tão infinitamente mãe...que não consegui descansar um único minuto antes de sentir a minha cria verdadeiramente tranquila neste princípio de "vida académica".

A semana passada foi para esquecer. Mas eu eu não esqueço. Vocês, que passaram pelo mesmo, também não...eu sei. Tantas foram as mensagens que eu recebi. Tantas! De mães a aconselhar, a acalmar, a desabafar...mães que, como eu e como mil, sofrem aquela dor aguda de separar-se de um filho. Como se explica isto a quem não sabe o que é? Sim, porque alguns podem pensar que isto é uma autêntica dramaturgia. Mas não.

Confesso ser uma mãe galinha e um tanto controladora. Como a minha mãe costuma dizer, "é preciso trabalhar esta questão". Durante a primeira semana de infantário da Matilde, ouvi o seu choro e a sua agonia. Telefonei e bati à porta tantas vezes quanto o bom senso permitiu. Não saí de casa, na inconsciente ideia de estar mais perto da cria, já que a escolinha fica mesmo à distância de um elevador. Sofri e chorei com o som das suas lágrimas, mas não me consegui afastar das janelas. Não se enganem. Fui forte. Forte como era preciso. Cumpri a minha tarefa de resistir à dor e à separação. Sobretudo, de resistir às dúvidas. Sou daquelas pessoas que só desistem do que não interessa, e quando o contrário acontece, entrego o coração e a alma ao aprendizado e à luta. E assim o fiz, com todas as emoções a fervilhar 24h por dia. Sim, é pleonasmo.

Sofri a dor sofrida, que é como quem se repete, até descobrir o flutuar prazeroso da confiança. Descobri que fui capaz de escolher o melhor dos infantários para a Matilde. Descobri que não há ali dentro, uma única pessoa a quem eu possa torcer o nariz. Descobri que há gente disposta a ser grande e a ser inteiro, e que não deixa uma mãe afligir-se sem uma palavra de amizade. Palavra esta que é repetida diariamente, como num mantra de paciência. E mais uma vez me repito, sim.

Descobri que há gente capaz de falar com voz de veludo, mesmo após 8 dias de tortura chorosa. Descobri que há gente que batalha pelo mesmo que eu, e que qualquer pai que entrega um filho. Descobri que de longe, há gente capaz de entrar pelas minhas janelas e abraçar o meu coração, enquanto oferece "colinho" à minha cria. Vi o quão belo é ver a Matilde voar num escorrega e navegar numa piscina de bolas. Correr entre crianças, enquanto ensaia as primeiras trocas de palavras. Enquanto eu recebo um telefonema a pedir para ir à janela contemplar o iniciar da tão esperada socialização da minha filha. Um passo que nunca na vida me vou esquecer.

Agora, dorme serena a minha criança. Tem os olhos rasgados num sono profundo, um traço tão particular, herdado do pai. Aquela expressão horizontal, de pestanas infinitas. Fala a dormir com a mais bela voz que ouvi. Grave e aguda, quase rouca enquanto repousa. Há pouco, sentiu que eu entrava no quarto e pediu o "leitinho", mesmo a dormir o seu sono profundo de criança crescida. Bebeu tudo, enquanto me fazia miminhos com as mãos quentes e suaves, absolutamente macias como o pêlo. E eu, ainda de perto, senti saudades pelo amanhã. Senti, e sinto, mesmo tantas saudades...dos dias em que as manhãs eram eternas, num enrolar de abracinhos e sonhos. De soninhos pequeninos e entrelaçados, enquanto eu tinha cuidado e fazia silêncio ao sair da sua beira para ir tratar da vida real. Enquanto esta vida real era bela pelo seu dormir aconchegado entre lençóis e mantas, minuciosamente envolvidos por mim.

Agora repousa no seu descansar de menina que vai para a escola, e que aos poucos ganha forças para existir sem mim. Eu, mesmo que contra-natura, aceito e reforço o seu vencer. Quero que "seja" para além de mim. Quero que guarde para sempre o que eu lhe ofereço, mas que seja capaz de encontrar a Matilde que é, num mundo onde eu não esteja. No seu mundo. Num mundo onde eu não estou para aconchegar, mas que eu preparei para ela. Macio, limpo, sereno. Como as mantas em que lhe embrulhei há pouco.

"Minha filha Mais-Que-Amada, este texto é para ti. Só para ti. Para que leias e saibas, mesmo que tenhas esquecido, que este momento de deixar-te planar voo me doeu, me custou...mas que valeu. Porque já me mostras que fiz a opção certa, e que fui exacta ao perceber o que precisavas. Espero ser sempre assim para ti. Espero ter todas as tuas respostas, e receio que não. Mas vou ter sempre guardado e pronto a oferecer, o calor que sentiste quando deitaste à minha beira nos teus primeiros anos de vida.

Te amo para além do infinito.

Mamã Lua."















sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um atropelo, e eu pelo meio


Estou, cada vez mais, convencida de que a modernidade pode atrapalhar as nossas vidas. Experimento este sabor, que por vezes amarga, todos os dias...e não há como fugir dele. Acreditem: não há. Esta visão de mundo inaugurada precária e sabiamente por Descartes, não para de se alterar, renovar...e por hora, acho enlouquecedor.

Tenho a minha vidinha invadida por diversos sentimentos, alheios a mim, mas que tomo como meus...basta ligar o computador, pegar no telemóvel...dar atenção à TV. Esta semana, já fui assombrada por um ataque de tubarão, com imagens escandalosamente escabrosas (um viva aos fabulásticos smartphones!), um acidente ferroviário aterrador, uns quantos pedidos de ajuda para pessoas doentes ou em estado de carência absoluta, e um blog, ou melhor, dois blogues que falam sobre a dor de perder um filho. Já chorei, já remexi as minhas gavetas todas, e até perdi um bocado de sono. Tudo isto, porque o mundo moderno me permite estar próxima do que não estou verdadeiramente. Me faz ser omnipresente. E mesmo que eu perca o telejornal, as malditas histórias estão perpetuadas na web, e são desmedidamente partilhadas e repartilhadas, numa corrente frenética de fome pelo outro. São tão constantes e profundas as transformações, e é tão gigante a velocidade com que a informação viaja e ganha força...dá o que pensar.

Por outro lado, há o belo brilho da moeda que é virada. Neste mundo louco e acelerado, onde tudo é de todos e é cada vez mais, descubro gente fantástica, lugares longínquos, histórias de esperança e vitória...descubro que há um grupo de mães como eu. Descubro que posso ajudar a divulgar coisas, casos e causas. Descubro que posso sair do meu mundo todos-os-dias. Que posso vestir outras peles, que posso crescer, conhecer e aprender. Que posso ser mais do que sou. Que posso sonhar com outras realidades, e por vezes, me sentir amargurada com algumas. E descubro, nos dias a seguir, que cresço com isto. Que fico maior e mais poderosa cada vez que abro as minhas janelas. Que olhar para "o outro" pode ser saudável, mesmo que num ritmo de fórmula 1. Mas atté entendo quem opta por nem abrir determinado link, por mudar o canal da TV...é uma capa de protecção que se veste, e embora necessária, também pode cegar e fazer o indivíduo mingar à luz dos tempos de hoje. Por isso, vou abrindo cada pedaço de mundo, encarando cada história, e gerindo cada partilha e cada sentimento que brota.

Se por um lado faço queixas por estar enterrada nesta grande confusão, por outro, obviamente valorizo e bato palminhas para esta constante (re)construção da cultura, dos artefactos tecnológicos, da política, da arte clássica, da anti-arte, da arte pela arte...que no espaço de um segundo, segue do local para o global, parte da objectividade rumo ao ficcional e ao virtual.

No fundo, somos todos uns Nietzschenianos. Apaixonados pelo moderno, pelas rupturas, pelo novo, pelo atropelo de ideias. Porque o bicho humano é tão louco e complexo, que só faz sentido existir assim: sempre a evoluir...à velocidade da luz.

#desabafoparacontinuarnestemundo

P.S: Este blog e Este outro são uma leitura difícil, dorida, bela e engrandecedora.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Hoje à noite, não há luar.

Eu nem quero sentir saudade, nem quero sentir dor. Nem quero sentir falta, nem ausência. Nem o estendal sem sentido, nem a panela que coze o que só há. Não quero o coração confuso, nem a alma inquieta. Nem quero sentir que podia pedir, nem quero sentir que fui ignorada, Não quero sentir que fui convidada, nem quero sentir que não fui. Não quero saber de sofrer, não quero saber de repensar. Não quero ser quem não foi. Quem não existiu, quem se excluiu, quem se desfez. Não quero ser o coração amargo que rejeita, que conhece e afasta. Que se protege para não doer. Não quero ser o final, a verdade ou a mentira. O retalho, a saudade ou o pedaço. Não quero ser o único amor, não quero ser quem não foi. Não querto ser a falta, a possibilidade.

Quero ser quem está. Junto, ao lado, partilhadora. Quero ter pela vida aquilo que escolhi, aquilo que me conforta. Quero as pontes e as luzes. Quero a Ribeira, quero a calma, quero a paz que me pode dar. Quero sair e voltar. Quero ter o que pedi, o que escolhi. Quero continuar na caminhada a que dei início. Quero não ser interrompida. Quero que seja, quero que continue a existir. Quero o luar de Primavera, quero o pôr-do-sol de verão. Quero a chuva de Outono e o gelo de inverno. Quero todas as estações. Quero separar a roupa, quero lavar, quero passar, quero guardar. Quero a vista, quero a minha casa, quero o lar. Quero que respeitem o que me prometeram, um dia, e não há muito. A mim e a quem veio do meu ventre.

É nestes dias, em que quero demais, e em que tudo me faz falta, e  em que tudo se contexta, que a música, contraditoriamente acalma o meu coração. Acalma a saudade que eu aprendi a sentir e a guardar para mim. Que eu entendi ser parte de mim. É nestes dias que eu entendo que isto é a minha vida, e que quero que assim continue. Estranhamente, ou covardemente.  E é nestes dias em que repenso tudo isto...e penso na fuga, no outro lugar. Nas promessas que existem, naquilo que posso ser e dar para quem de mim depender.

A felicidade que sonho não existe sem este pensar. Sem este pensar. Sem este pensar. Sem esta contradição de querer estar e de querer fugir. O coração não se completa sem a amargura da realidade e sem a dor da falta. Muito menos sem o sonho. O sonho do que há, do que pode haver, do que pode estar guardado.  Há noites, e há dias em que faz falta o completo do que somos, e em que faz falta o sonhar. O que somos, nada mais é do que aquilo que vivemos. E então pensamos, que há tanto que vivemos num mesmo, que é difícil mudar, embora se faça necessário. E mais uma vez, a música acalma a saudade, e acalma o pensar.  Acalma o coração que se ressente do som daquilo, daquele lugar. Que quer, e que rejeita. E depois, há o sonho de não poder lá estar, porque não quero, e ao mesmo tempo desejo. Anseio e tenho medo. Então, acordo aflita pela dor da ausência daquela materialiddae amiga e solar. E penso na culpa de lá estar, e não aqui. E na culpa de aqui estar.

E hoje à noite, não há luar. Porque estou sem saber o que procurar, ou onde. E aí eu penso estar a me construir. E só quero saber onde. Onde...onde.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

País cão

Era Quinta-feira e chovia a cântaros. Naquela noite fria, o vento forte cortava a respiração, enquanto os ombros encolhiam-se por reflexo. Pelas grandes portas de vidro, naquele lugar pouco iluminado, daquela nobre zona da cidade, entravam e saiam pessoas de todas as idades, e de quase todas as classes sociais. Eu própria, por ali já havia passado por duas vezes. À pressa, por estar a gelar. Foi assim durante todo o serão. Entra gente, sai gente. Entra gente, sai gente.

Ali, ao frio, estava um homem de meia idade. Tinha a cara inchada e marcada pelo tempo. Os olhos amarelados e a pele de azeitona. Tinha uma expressão sofrida, carente, desacreditada. Algures dentro de si, tinha esperança. Via-se pelo sorriso que poucas vezes esboçava. Era grato e humilde. Vestia um casaco impermeável preto, com carapuço, e segurava um velho guarda-chuva. As mãos, calejadas e sujas, de unhas cortadas e com muita leveza, sustentavam os pedidos de ajuda. Aquelas eram mãos de quem trabalhou no pesado durante uma vida inteira. As frases de apelo não eram ensaiadas, e poucas eram as vezes em que se conseguiam completar, tamanha era a pressa de fuga dos que ali passavam. Não pude deixar de reparar nos detalhes, não pude deixar de sentir comoção, e não pude negar aquele senhor, a oportunidade de pedir. Não pude deixar de vê-lo à minha frente, educado e cordial. Não há muito que se possa fazer numa situação destas. A escolha está entre olhar para o outro, ou olhar para o lado. E sim, muitas foram as vezes, senão quase todas, que aquele senhor passou literalmente ao lado de toda a gente.

Pedi-lhe um isqueiro emprestado e ele insistiu que eu ficasse com aquilo. Sem aceitar, entreguei-lhe o  objeto, e também o que eu tinha na carteira. Três euros em moedas. Ou melhor, quase entreguei. O senhor afastou as minhas mãos e disse que preferia que eu lhe comprasse qualquer coisa para comer. Achei curioso, achei diferente e achei bonito. Achei triste. Entrei pelas portas de vidro mais uma vez, e já aquecida e abrigada, exerci aquilo que acredito. Comprei umas poucas coisas, entre leite, massas e arroz. Tinha dor no meu coração, e não pena. A realidade havia me machucado. Entreguei as sacas ao senhor, e novamente à chuva, trocamos dois dedos de conversa. Senti que aquele homem, tão dorído, queria ser escutado, queria ser visto. Falou-me da família, da fome dos dois filhos. Disse que gostavam de achocolatado no leite, e que coisas simples assim, não lhes conseguia oferecer. Naquela noite, ao menos naquela noite, e enquanto durasse aquilo que levava nas sacas, teriam leite aquecido e com sabor a chocolate. Fui embora com o meu marido, a caminhar pela chuva fria, e estávamos os dois destroçados.

Chegamos à casa, e lá estava a nossa bebé feliz. Quentinha, vestida, alimentada, calçada. Nós os dois estávamos alimentados e aquecidos. Impossível era não refletir sobre tudo o que me doía naquele momento. Sobre quem era aquele homem, de onde veio, para aonde vai. Quem eram os seus pais, que oportunidades tiveram, o que lhe deram. Quem era a sua mulher, quem vão ser os seus filhos. O que a vida lhe deu, o que a vida lhe desgraçou. Que destino tem traçado. Se a sua vida já teria sido melhor, se nasceu para sofrer ao frio e à fome. Se já teria sido feliz e pleno. Se já sentira tranquilidade e paz. Se tinha trabalho, se o perdeu. Se está nesta situação por culpa minha, sua, ou do governo. Se há culpas.

As mãos e o olhar daquele homem não me mentiram. A mágoa estava ali, a lhe escorrer pela cara, envelhecida pela tristeza. Não pude deixar de pensar, e penso até hoje. Qual é o futuro da nossa gente?



Para seguir esta mamã no Facebook, é AQUI.

terça-feira, 19 de março de 2013

Quem vive, É.

Viver deve ser a palavra mais rica do dicionário. Cabe tudo dentro dela. Tudo. Comporta cores, sons, cheiros, memórias, amores, sabores. Abriga e multiplica, sempre ao gosto de quem a emprega, de quem usa e abusa dos seus sentidos vários. No fundo, ela é gigante. Cheia. Para quem consegue vê-la bem, claro. Porque senão, ela parece cinzenta e abandonada. Esquecida no tic-tac das horas que apenas passam por nós.

Quem conhece o seu sentido, vai olhar para trás e tentar contabilizar o tamanho que esta palavra tem para si. Vai tentar encontrar todos os tons, sonoros e visuais, e todos aromas que se criaram no tempo. O azul anil do céu, naquelas tardes de verão da infância. O cheiro a mar. Os mergulhos sem fim, quando ainda pensávamos que se mergulhássemos muito fundo, podíamos chegar à China. Quando a imaginação era o limite. Os passeios com o pai, naqueles Domingos inesquecíveis, e sempre marcados pela saudade de chegar à casa. Os Sábados na praia. As voltas de bicicleta. Aquela almofada, aquele pijama, aquela gaveta só de coisas dele. Aprender a tomar banho com ele, naquela aula de ciências que nunca se esquece. Ai, as células mortas.

O sabor ao bolo da avó às sextas-feiras, ao brigadeiro branco das amigas de faculdade. Todas as músicas que sempre se fizeram as melhores companheiras. As boas, e as más. O tilintar das pulseiras daquela tia, sempre impecável, naquelas férias em que a melhor amiga foi a empregada da casa, da qual se lembra para sempre com carinho. O tio que ensinou a parar com os soluços. A tia, mãe de leite farto, que sempre nos encheu a vida de sorrisos e sonhares. De fé. A banana achocolatada, feita pela avó sisuda, que sabia ser doce, naquela casa à beira mar. A Maria que enche de afago, de afeto, de amores. A adolescência, com os seus altos e baixos, que habita eternamente no nosso existir. Aquele brinquedo, aquela roupa, aquele presente, aquele encontro, aquela pessoa. A mãe tão grande, que cabe em cada espaço desta palavra.

Com sorte, chegamos à idade em que compreendemos a totalidade desta junção de letras, nada aleatória...viver. Chegamos, e continuamos a acreditar nela, e já compreendendo que somos nós quem lhe damos o sentido que quisermos. E neste trabalho, vamos diariamente construindo o nosso baú de memórias. Lemos o que nos engrandece, olhamos profundamente para o outro, que está ao lado, que está longe, que nem conhecemos. Trabalhamos a fé no mundo. Trabalhamos para ganhar dinheiro, para abusar da vida. Montamos uma casa, montamos uma família. Multiplicamos o amor e nos criamos pais. Chegam os novos sons, os novos cheiros, a novidade dos sabores...são tantas as cores! É um bebé, são dois, são três. É a casa cheia, o carro repleto, a mala carregada. São os risos, são as gargalhadas, são os choros, são as birras. E eles crescem. Ficam grandes e nos odeiam, e nos amam, e nos voltam a odiar. Até que chegam à fase de compreender isto tudo, e começam a entender a vida. Nos dão netos, põem fermento na nossa família. E tudo se renova, mesmo quando não esperamos por nada.

São os desafios todos, que nos fazem fortes para continuar a amar esta palavrinha. É o desejo de um futuro colorido e feliz, que nos surge na cabeça, como num filme que vamos criando e rodando. Vamos trabalhando por isso e para isto. Para o resultado das vivências, nos consumar felizes. Dilemas fazem parte do processo, os problemas também. Decisões importantes vão sempre existir. Tristezas e perdas também. Mas afinal, quem lhes dá o tamanho que têm? Você, meu caro ou cara. Você.

Por isso hoje, abane a poeira e espante o que não faz bem. O maior troféu que podemos ganhar, é chegarmos ao final da semana, do mês, do ano ou da vida, e sentirmos que vivemos. Vivemos e vivemos. Os bons, os muito bons, e os maus dias. Agora...se você não vê o valor disto, então é um caso perdido. Arrume as suas coisinhas e deite-se na monotonia da solidão, escura e sem sal. Porque não basta escrever e ler esta palavra. É preciso recebê-la e torná-la diária. É preciso saber viver.


Bejinhos de quem tenta, sempre e incessantemente.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Retrato datado de 1983

Família: O nosso grupo social primário. A nossa base, o nosso chão. O caminho e o caminhar. A pegada e o autor. O seguidor. O traço e a obra. O pulso que pulsa para sempre na nossa história. 

Que se excluam desde já, os percalços, as escolhas e os sentimentos que tentem contradizer a forma visceral como isto funciona. Não há volta a dar à questão. Não há como negar, bloquear: Somos aquilo que nos construímos, sumariamente, através do nosso clã. Somos, não somos? Não se pode remar contra esta maré, pois provavelmente, até a forma de o fazer, teve origem na origem.

Reza uma antiga lenda, que há um encontro pré-programado, criado apenas a fim de fazer e dar sentido à vida, que de outra forma, seria solitária e comedida. Esta narrativa de caráter maravilhoso, deformada pela imaginação popular, e embelezada pela invenção poética, diz que é possível a escolha dos nossos. Permite aos vivos portanto, que acreditem num início de tudo. Que acontece em um plano qualquer, onde os indivíduos de um mesmo agregado decidem trilhar um caminho comum. 

Para além das balelas, família é uma coisa profundamente engraçada de existir. Juntam-se feitios e cores, caretas e vozes...numa autêntica guerra de afetos. Partilham a mesa, o sofá, a cama. Misturam dramas, piadas, risos e lágrimas. Confissões, segredos, memórias. Estranhamente, Cohabitam, e ao fim do dia, voltam sempre para o mesmo encontro. 

Há aquelas, de raíz falsamente italiana, em que o silêncio é raro. Em que é possível saltar de um sorriso, à uma ligeira discussão, voltando mais uma vez a multiplicar sobremesas e palavras. Família é, definitivamente, o melhor que há no mundo. É bela no seu construir, no seu desenrolar, e no seu constante esforço por se fazer coesa, rija.

Quando as pessoas de um mesmo grupo primário estão bem, correm para o abraço, para as compras, para as refeições. Criam e recriam as salgalhadas diárias, tão particulares destes felizes bandos. 

Quando estão mal, repartem o copo do gelado, e entregam o peito para o conforto único, que só este amor conhece. São pernas que se entrelaçam em frente à TV, e que depois do desabafo, relaxam na felicidade tranquila deste laço. 

Também gritam quando o sapato lhes aperta, quando os nervos tomam conta. Discutem, agridem, desabam. Quase sempre, um "desculpa-me", em sussurro, resolve o estrago. Às vezes, nem é preciso...porque a seguir à família, foram criados os conceitos do perdão e da compreensão.

É...família é coisa rara. No sentido literal e estético da palavra. No sentido que se sente, saboreia, reconhece. Família é onde não há ajuda que se negue, gargalhada que não faça eco. Não há branco no branco, nem preto no preto. São contrastes que combinam, condizem, e não separam...porque apenas conjugam. Não há fronteira que afaste, e nem linhas imaginárias que impeçam o amor de renascer, renascer, renascer. Sempre numa corrente de renovação afetiva, que se traduz no bater de um coração que ferve pelo outro. 

Família é gente que se junta para encher as veias. Há as de sangue, há as de sentimento, e há as de papel. Há as que são escolhidas, e há as que nos oferecem de presente. Há as que são premeditadas, sonhadas, desenhadas ao pormenor...e há as que surgem no espaço de tempo de uma estrela cadente. 

São cores e corpos, apertos e afagos, espaços...oxigênio. Família é força motora...nos move e alimenta. Acrescenta, engrandece. É conjunto, junção. É unir, do início ao fim. São barrigas que geram barrigas, que plantam, semeiam, brotam e colhem...num profundo existir feliz.

Quando um se vai embora, deixa a ausência de consolo. Deixa gavetas cheias e por arrumar, que apenas por si, magoam a quem ficou. Deixa a roupa suja e o cheiro. Deixa os sapatos velhos, com a marca do marchar. Deixa as plantas por regar, o cão por passear, as contas por pagar. Deixa a palavra ainda não dita, a viagem por marcar, a camisola velha e gasta das quintas-feiras. Deixa por descobrir, o novo sentido que a vida terá de fazer. Deixa a dor e a saudade, bem ao lado do shampoo para cabelos encaracolados, do sabonete por acabar, e da escova de dentes comprada na passada semana.

Este é o ponto fraco da família, aquele que nenhuma delas se conseguirá livrar: a certeza da dor por acontecer, em nós ou no outro. E a dor, meus caros leitores...a dor é a maior delas, vivendo para sempre agarrada ao som silencioso da felicidade vivida.

Já cuidou da sua gente hoje?





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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Enquanto ela dorme...


Magicar sobre a vida é das coisas mais bonitas que podemos fazer a sós. Despertar para momentos, subtilidades, possibilidades e caminhos. Mas sobretudo, para saborear o breve instante do presente. Ali, dentro do silêncio e do escuro da noite, estive a ouvir o profundo respirar da minha criança. Tão pequenina, tão serena. 

Aquelas mãos, que já tanto cresceram, e ainda se fazem minúsculas, pousadas sobre o calor das cobertas. Os olhos, transformados em pequenos rasgões de descanso. Os cabelos, delicados caracóis dourados, espalhados sobre a pequena almofada. Dentro dos sonhos, breves flashes que fazem surgir um olhar de meio segundo, transparescendo a íris cor de água. Nada pode ser tão confortável quanto estar ali, ao lado daquele pequeno corpo, aproveitando o calor daqueles pés, miniaturas dos meus,  cobertos por umas galochas marinho de pintinhas brancas- Aquela engraçada peça de borracha, que transformou-se em melhor amiga, e que já nem é poupada na hora do sono. 

Encosto a minha cabeça naqueles ombros pequeninos e aquecidos, enquanto rasgo um sorriso de imensa felicidade. Sei que o meu mundo inteiro está naquela mesma cama, e como por magia, consigo tocá-lo, cheirá-lo, senti-lo, amá-lo. É real como tudo o que é material, e enorme como pode ser um sonho, um delírio de mulher feliz. Inteira por instantes, esquecida do vazio do mundo lá fora. 

Ali, nada falta, tudo sobra. Nada preocupa. Ali, não há governo e nem povo. Não há lei, castigo ou justiça. Não há Segurança Social, tampouco a página de empregos daquele jornal, que já nem em si acredita. Não há o choro daquela mãe, a ansiedade daquele pai, ou o mistério de um futuro. Não há Obamas, Trumps, Dilmas, Lulas e escândalos. Não há Zika, Carnaval ou Facebook. Não há Suíça, não há fugas. Não há saudade, não cabem ausências.

Ali, há amor e silêncio. Há tempo. Preciosidades que a vida, a conta-gotas, nos mostra.

Uma borboleta parece estar pousada sobre a esquina da cama. Parada, a estremecer as asas. A guardar o meu sonho. Se existe algum tipo de paz, este é o retrato dela.

(Afinal, o mundo pode ser um lugar tão pequenino...)



Beijinhos, e uma linda Quinta-feira!




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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Um novo dia, um novo ano.

Ontem, era um ano velho...gasto. Já sem graça e já passado do ponto. Ontem era ontem, um dia já "assim-assim". Mas, hoje, apesar de uma noite mal dormida e de muito cansaço...é um novo dia! Um novo ano, uma nova contagem, um novo recomeço.

Pois é, pois é...chegamos a 2013. Um aninho ainda muito, muito bebé. Vamos imaginá-lo assim? Não vamos fazer suposições sobre como ele será, ou como vai evoluir. Não vamos acreditar, nem desacreditar. Vamos apenas ter aquela mesma fé, que temos quando é chegado um novo bebé. Receber o novo ano com a mesma esperança.

Vamos esperar que ele seja feliz, saudável, tranquilo. Já sabemos que virão dias ou noites complicadas, como qualquer pai ou mãe conhece bem. Mas sabemos também, que basta a nossa paciência, o quentinho do nosso colo, a voz suave de quem quer bem...e tudo passa. Porque a vida é mesmo assim. Feita de coisas que vão e vem. Simples como a rotina de um bebé.

Então, vamos oferecer ao ano de 2013 um crédito. Não vamos esperar que ele seja  "o problema" do qual todos falam. Vamos estar fortes para as alturas de crise, sim...claro. Mas acima de tudo, vamos estar  de braços abertos, prontos para nos emocionarmos com as menores coisinhas, com todos os detalhes. Vamos deixar o caminho aberto para o amor, e para os muitos sorrisos que, mesmo em tempos de austeridades, têm todos os motivos para acontecer.

2013 chegou, meus amigos e amigas. Com ele, chegaram também as milhares de possibilidades de sermos felizes. E se ao longo do ano, estas possibilidades não parecerem ser tantas assim...não nos podemos esquecer que, da mesma forma que este ano chegou, também vai embora. E então, chegará um novo dia. Um novo ciclo, um novo recomeço.

O que é importante é termos calma, colocarmos os pés no chão. Esperar que as coisas comecem a rolar. Ter um bebé em tempos de crise não é fácil, mas é preciso...tenham paciência. Então, andem daí, e comecem desde já a cuidar dos vossos bebés. É de agora que plantamos o que há de mais bonito, enquanto ainda são pequeninos.


UM FELIZ ANO NOVO!!! ;)


Beijinhos cá de casa.




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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um dia especial!

Hoje é um dia lindo. Um dia forte, um dia querido, um dia de festa. Festa dentro de mim.

Hoje, estamos a comemorar mais um ano de vida da nossa Maria. A mãe, a avó, a bisa. A mulher mais forte e mais correta que eu conheço. A nossa guerreira, fortaleza de todos nós.


Setenta e nove é o número que hoje comemoro.   

A Maria de quem eu falo, é marcante, mexida, amada. Protetora. Maternal. Natureza.

O meu pai diz que ela é santa. Para mim ela é amor. No sentido mais amplo da palavra. Não lembro de ter conhecido alguém que ficasse indiferente a esta senhora. Desde os familiares próximos, aos mais distantes, passando pelos amigos, os mais diversos, que na sua casa entraram. O homem que arranjava o jardim, o que pintava as paredes, ou o que fazia os consertos todos. Há um mar de gente fiel a esta mulher. É o poder das Marias.

A Maria é tímida, e das poucas vezes que nos falamos via Skype, ela não aparece muito. Fica num cantinho, calada, quase que a fazer alguma cerimônia. Mas não tem mal, o importante é vê-la. É sabê-la bem. É tê-la  mais perto de mim.

A Maria não é de muitas expressões, mas fala, e fala muito. Só não gosta que façamos piada disto. Quando ri, é de forma encolhida...e até lacrimeja quando o faz. É de uma inocência sem tamanho. É pura. É mesmo Maria.

A Maria é trabalho, é suor, é batalha, é bondade, é calor. É abraço que abraça o peito. É doce, é salgada. É torrada com chazinho quando estamos com dor de barriga, é toalhinha com álcool quando temos febre. É quem tem paciência com as criancices todas, é quem concilia. É quem oferece nos aniversários, os únicos sabonetes que vais guardar para o resto da vida. Ou aquele par de meias que vais usar com muito, muito, muito cuidado. É quem chora quando os animais sofrem naqueles filmes da sessão da tarde. É quem cuida do teu cãozinho, quando mais ninguém o faz.

A Maria é um prato quentinho de comida, justamente quando estamos a morrer de fome. É a massa à bolonhesa, a lasanha, o lombo assado com farofa, e a salada de batatas que guardamos na memória.  É o bolo de chocolate da Sexta-feira. É a história do patinho na lagoa (Tchibum! Tchibum!), contada num quarto daquele edifício amarelo. Ninguém cuida de mim como ela.

A Maria tem coragem para mudar o mundo, e criou gente linda para continuar a fazê-lo.

A Maria foi quem nos levou ao colo, e quem criou uma família de mulheres valentes como tudo. E sem falsa modéstia, mulheres maravilhosas. Que não o seriam, se não fosse ela a nossa Maria.

Não há uma das suas netas, que não lhe entregue uma paixão absoluta, e que por ela, não carregasse o peso do mundo às costas. As duas filhas, lhe dedicam tal sentimento, que às vezes pensamos não ser normal.

Por esta Maria, tenho tanto amor, mas tanto amor...que sinto que sou mais feliz por isso.

Sofro quando não estou junto dela, e já lá vão uns longos três anos em que a distância não ofereceu qualquer trégua. Casei, fui mãe e ainda não estivemos juntas. Esta é uma mágoa que tenho cá dentro, e que só a vou apagar quando abraçar a minha Maria. Assim, com todas as minhas forças, com toda a minha vontade.

Hoje, é dia de festa e eu choro. Mas não é choro simples. É daqueles que chegam com a cara já amarrotada, e com um soluço atrás do outro. É choro que eu tenho que segurar para não tomar conta de mim. Não é choro de dor. É de saudade. E saudade mata a gente.

"Vó"...sei que vão ler isto tudo para ti, mas não escrevo para tu chorares...por favor...escrevo apenas porque é a minha maneira de chegar a ti, e de falar do meu amor sem fim e sem tamanho. É o meu jeito de agradecer por me teres feito uma " Maria".

 Te amo profundamente, e até qualquer dia... ;)
Um beijo grande, e um abraço apertado...da tua neta.



P.S: Eu podia querer escrever bonito e tal...mas não. Apenas escrevo esta carta para ela, que é um pedaço de mim, e partilho com o mundo o meu sentimento. Eu nunca poderia competir com o Milton Nascimento. Ele já tão bem descreveu a minha Maria. Não lhe retiro uma palavra, não lhe acrescento uma vírgula. Para quem não conhece a música, nunca é tarde...para quem já tantas vezes a ouviu, só posso dizer que nunca é demais.

"Maria, Maria. Quem traz na pele esta marca, possui a estranha mania de ter fé na vida".



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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal

Então, é Natal...! :)

Meus Queridos e queridas, é chegado o dia que tanto esperávamos! Dia de estar com a família, de renovar os laços que nos unem...dia de encostar os problemas, e dar as boas vindas a um enorme sorriso. Dia de vestir os nossos pequenos e pequenas com a roupinhas que, com tanto cuidado, escolhemos. Dia de abraçar aquela tia que já não vemos há muito, de telefonar aquele amigo distante, e de agarrar e encher de beijinhos os que estão ao nosso lado. Dia de festejar. Festejar aquilo que temos, e compreender o que não temos.  

Dia de ser feliz. Coletivamente.

Dia de agradecer, perdoar, aproximar. Dia de lembrar daquilo que é importante, e esquecer o que apenas fez mal. Dia de brindar a novos horizontes, e de desejar profundamente, que o mundo possa oferecer os nossos sonhos...

Dia de pensar naqueles que mais precisam. De fazer algo por eles. Dia de reflexão. Todas aquelas que adiamos e adiamos...

Aproveitem para engrandecer, meus caros. Natal é apenas uma vez no ano, eu sei.  Mas ele pode ser mais do que isso. Ele pode estar em muitos pedacinhos da nossa vida, que espalham-se pela nossa história, e fazem com que possamos sentir que vivemos...e que não apenas "passamos pela vida", sem levar algo e sem deixar também. O Natal quer que sejamos felizes uns com os outros. Então vamos ser. Todos os dias, o ano inteiro. 

Este é o primeiro "festejo" que a minha M. já compreende bem...e estou ansiosa pela noite que está a chegar, com cada surpresinha que a princesa nos vai mostrar!
Já estou feliz, e o dia ainda tem tanto para oferecer...!

Deixo para vocês, uma imagem do nosso Sábado, que para mim, traduz todo o espírito de hoje...a M. numa "chuva de confetti", num encantamento que só visto...

UM FELIZ NATAL, MEUS AMIGOS!

Beijinhos, muitos, sempre.







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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Inspiração


Inspiração: ação de inspirar ou ser inspirado.
Ação pela qual o ar penetra nos pulmões: o homem adulto, em repouso, faz 16 inspirações por minuto.
De forma figurativa: Conselho, sugestão. Agir por inspiração de...
Estado da alma quando influenciada por uma potência sobrenatural. Inspiração divina.
Coisa inspirada. Ou pessoa que inspira.
Sinónimos de Inspiração: iluminação, lampejo.
Definição de inspiração: Substantivo feminino.
Separação das sílabas: ins-pi-ra-ção.
Plural: inspirações.



Porque toda a inspiração, é uma forma de crescimento. 
Porque tudo o que te inspira, dá-te oxigénio, renova, modifica, não deixa prostrar.
O que te inspira,  passa a respirar também através de ti.

Toda a inspiração, é uma maneira de trabalhar a nossa cabeça. E ela agradece.
Inspirar-se é a solução para movimentar a vida.

Inspira-se aquele que cria, e recria.
Aquele que leva a vida, de leve, e deixa-se levar.

Inspira-se alguém que viaja, que come bem. Que arranja-se.
Que beija, que sorri, que ama.
Que cozinha, que recebe, que fotografa.
Que lê, brinca, imagina.

Aquele que enche a casa de afetos, inspira-se.

Inspira-se quem acumula bagagem, quem não deixa de viver.
Quem sonha e permite-se sonhar o sonho de alguém.
Quem ouve, quem respeita, quem aceita.

A inspiração, meus amigos e amigas, é para quem é capaz de reinventar-se.


Por isso, hoje, amanhã, e também depois...

...INSPIRA-TE.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

Seja Amigo da Felicidade

O que você faz para ser Feliz?

Felicidade não é coisa fácil, não recebemos à toa. É um estado que se pode alcançar com trabalho, muito trabalho. Trabalho interno, antes de qualquer outro. Trabalho de olhar para dentro, de conhecer quem somos, de arrumar a "casa". Custa tanto quanto custa amadurecer.

Ela chega quando mudamos de atitude, quando olhamos profundamente para a nossa existência. Vem para perto de nós se aceitarmos quem somos, e é muito mais real e fiel quando aprendemos a sorrir pelo outro, pelo mundo.  Muitas vezes, ela apresenta-se a quem sabe sair de cena, para ver o outro dar espetáculo, brilhar. Porque quando somos capazes disto, de olhar ao redor, multiplicamos as hipóteses de felicidade. Ela passa a estar em toda a parte, onde menos esperamos. No "bom dia" daquele homem que passa por nós, no caminhar daquele bebé, no olhar daquela senhora que pede esmolas na rua.

Pode ser ligeira, arrebatadora, fulminante. Mas bom, bom mesmo, é quando é tranquila. Quando é inteira. É quando chega de malas feitas, pronta para ficar. Quando transformamo-nos no seu amigo.

Felicidade não perdoa desaforo, meus queridos leitores. Ela pode casar com você, e raras vezes abandoná-lo. Mas ela não vai olhar para si, se você estiver desinteressante. E quem desperta interesses é aquele que sabe amar, sabe sorrir, sabe agarrar o que vale a pena na vida, e descartar o resto. É capaz de admirar, e é capaz de dizer isto. É capaz de desejar o bem.

Interessante mesmo é quem sabe plantar o bem, e colhe como poucos. Agradece o que tem, compreende o que não tem. Tudo, sem olhar para o lado. Sem cobiçar. Sem querer ser o outro, sem querer o que é do outro. Sabe ocupar e transformar o seu próprio lugar. Rega as plantas de casa. Embeleza a vida. Flui, flui, flui. É alguém que é bonito, mesmo bonito. Interessa-me este alguém.

E só aviso: tenha calma...há lugar para todos nós. Com todas as nossas diferenças, com todas as mil  e uma qualidades que você tem. Que eu tenho. Com a beleza que eu tenho na minha vida, e você na sua.

Ser feliz é uma arte. E, tristemente, informo que não é para todos. Porque tem gente que não sabe ser, não encontra o caminho. Não enquadra. Porque há quem não seja leve, quem não seja livre. Tem gente que até quando solta as amarras, é sem jeito. Não combina. O que era para ser uma gargalhada, soa a susto. Inevitavelmente, e não por mal, deixam de fazer parte da minha vida. Porque não condiz comigo e com os meus. Simples assim.

Acredito profundamente que aqueles que não sabem ser felizes, têm a perfeita consciência disto. Sabem onde o sapato lhes aperta, sabem como funcionam, como olham para o mundo. Mas mudar é difícil, dificílimo. Exige tempo, pede coragem. Pede generosidade, consigo e com os outros. Mas generosidade, minha gente, é coisa rara.

É triste perceber que tantas pessoas apenas "passam" pelo mundo. Sem dar conta, sem deixar nada de lindo. Que desperdiçam o dom da vida com coisas mesquinhas, tacanhas, minúsculas. Digo que é triste, porque é mesmo. Só posso desejar que algo mude. Por elas, não por mim. Também posso escrever sobre isto....e assim o faço. Porque posso.

Você pode agora estar a perguntar-se a razão deste texto. E eu explico. É por pensar na sorte que tenho, porque recebo afagos e generosidade, muitas vezes de quem nem conheço. Por chegar à conclusão de que há muita gente capaz de ser feliz.

 Desde que iniciei o blogue, tenho sido alvo de muito carinho, e agradeço infinitamente. São pessoas que me presenteiam com palavras de incentivo, e é para elas, para a grandeza de espírito que têm, que eu reflito e publico. Que eu ofereço a minha casa interior, o meu canto.

E não esqueçam. É como diz a música, "felicidade é só questão de ser".  ;)

Agora, pergunte-se: "O que eu faço para ser feliz?".

Beijinhos para quem consegue, para quem tenta.





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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A Questão do ABRAÇO



Ontem à noite, quando estava a tentar chegar à cozinha, a M. não parava de agarrar-me pelas pernas a pedir "baço". Depois de tentar explicar que a mamã estava a fazer o jantar, sem sucesso, desisti. Sentei-me no sofá e coloquei a pequena ao colo. Imediatamente, ela aninhou-se encostada ao meu peito, num abraço tranquilo. E ali estivemos as duas, entrelaçadas a ver televisão, trocando olhares. Por vezes, a M. virava os olhos para mim e soltava um beijinho.

Neste momento, só conseguia pensar que estava no melhor lugar do mundo. Foi como se um casulo de repente nos abrigasse, longe do tempo e das tarefas. Um cantinho só nosso. Senti-me segura e achei engraçado, porque este deve ter sido o mesmo sentimento passado para ela.

Foi inevitável desenvolver toda uma linha de raciocínio sobre o tema. Estive, cá com os meus botões, a pensar nos abraços que dei, e nos que não dei. Abraço é uma coisa que a gente vai esquecendo quando se torna adulto...porque o dia à dia nos endurece um pouco, porque o tempo é curto, ou apenas porque habituamo-nos a olhar unicamente por nós próprios. Pensei ainda, e já a sofrer, nos abraços que me vão ser negados quando a M. entrar na "aborrescência", quando tiver as suas crises, quando quiser sair de casa...da mesma forma que eu fiz com os meus pais.

Todo o mundo passa por uma fase assim, é verdade. De querer pouco contacto, de envergonhar-se com o carinho dos pais, de culpá-los por todas as injustiças do planeta. É normal, eu sei. Mas é estúpido e cruel. Só depois de ser mãe, é que vi as coisas assim.

Abraço de filho deveria vir em receita médica. Acho que não há nada melhor para as mazelas do corpo e da alma. Porque abraço cura, minha gente. Abraço aproxima, aconchega, conforta. Abraço de eu te amo, abraço de saudade, abraço de quem pede desculpa, de quem quer ajuda...

Sinto culpa pelos abraços que não dei, neguei, escondi. Principalmente, daqueles que eram para os meus pais. Felizmente, há tempo para voltar a distribuí-los.

E assim o farei. Esta é uma campanha "interna", só minha, ensinada pela minha filha bebé. Vou abraçar, apertar e aconchegar. Vou apresentar o meu carinho a quem dele precisar. Vou trazer para o casulo. Vou voltar a ser criança muitas vezes. Para aninhar e me deixar sorrir...para soltar as amarras, aliviar a tensão. Para tornar-me veículo de amor.

Li em qualquer lado que "quando abraçamos, a felicidade nos visita por segundos"...e não é?!

Quando estava ali, naquele sofá, dentro do abraço da M., tive vontade de abraçar os meus pais, o meu marido, os meus irmãos, a minha avó Maria, o meu afilhado, algumas tias muito amadas, a minha prima-irmã, umas poucas amigas que estão longe...e difícil foi prender aquelas duas ou três lágrimas, que claramente, escaparam. A minha filha olhou para mim e disse, levando o dedo aos meus olhos: "Ábua, ábua!". Aí,  um sorriso chegou a correr. :)

No final daqueles minutos de carinho e de reflexão, senti-me maior e melhor. Engrandeci.

E você? Você...você! Aí mesmo! Que está a ler este post! Já abraçou hoje?! ;)

Beijinhos, e um abraço apertado...



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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Desabafo de Natal

Ando, há tanto, desencantada com o rumo que o país está a tomar. Portugal sempre foi e sempre será um pedaço enorme de mim, que me enche de afetos, e que costumava trazer-me satisfação, e orgulho da minha escolha de estar cá. 
Vim para estudar, atrás do jovem sonho de viver novas experiências e sair da caixa. Assim o fiz, e posso dizer que vivi imenso e intensamente cada oportunidade que me apareceu à frente. Fiz amizades lindas, descobri novas formas de festejar e estar na vida. Andei por muitos pedacinhos desta terra, e aprendi a apreciar a beleza de ter as 4 estações do ano, de verdade e por inteiro. Com cada imagem que nos apresentam...com cada colorir que se renova. Hoje gosto tanto deste "relógio" da natureza, que penso já não conseguir viver sem.

Mas agora o frio chega tão profundamente, que faz-me pensar...Estamos quase no natal, e esta, que sempre foi uma altura de enorme alegria, agora tem um certo toque que amarga. É...ao menos para mim, o natal tem tido um sentido diferente. Sempre foi um momento de dar graças, querer o bem. De meditar sobre os cantinhos do mundo, e sobre quais seriam os seus contextos nesta quadra. Mas fazia isto com o coração preenchido de vermelho, iluminado com mil e uma luzinhas piscantes e coloridas. Agora, já não é assim. Penso mais acastanhado, escurecido...sinto mais. E a desilusão é maior e mais funda.

Tenho pensado no futuro, no que me aguarda pela frente. No futuro da minha amada M., da minha família...e no futuro do lugar que escolhi para viver e construir o meu ninho. Protegido, seguro. Sinto-me então, ameaçada pelo natal. Simplesmente, porque ele me faz pensar. Mas sei, na perfeição, que a minha ameaça é outra...e é a mesma que assombra todo o país.
Quantas crianças não terão o natal que merecem? Quantos pais vão descobrir o sentimento de impotência, a pensar que estão a falhar? Quantos vão se sentir pequenos? Afogados na desilusão de um país que só tem perdido uma batalha a seguir à outra...

Sou uma otimista incurável, e ver o lado belo da vida é algo que não consigo contrariar. Quem me conhece, sabe bem que diante das pedras, eu vejo as flores que estão a seguir. Mas tenho tido alguma dificuldade em manter este espírito. Talvez seja um efeito colateral da maturidade, não sei. Mas talvez não. Penso que estão a tirar-me a esperança e a capacidade de admirar. Coisa que não tem perdão possível.

Tenho tecido, interiormente, um manto de planos. São tantos...! Cada um deles, é como um retalho de pano achado dentro de mim, e tem a sua beleza e os seus tons. Cada um deles se complementa e não pode existir em solidão. Um inspira o outro...que inspira outro, e outro, e outro. Vasculho e dou uma sacudidela às minha ideias, lembranças, amores. E assim, surgem os planos de algodão, cetim, chita. Alguns se criam, outros se recriam, e assim vou tecendo, tecendo...assim, na ficção, na imaginação. Porque a verdade dos fatos, é que vivo num atelier sem estrutura, desmoronando. Um lugar que começa a ser abandonado, porque não dá retorno aos que nele trabalham. Um lugar que parece sem luz.
Este mesmo atelier, já foi diferente. Tinha crianças a brincar, pais traquilos que as criavam, velhinhos e velhinhas, que sentados em cadeiras de balanço, bordavam e bordavam, na certeza do reconhecimento de uma vida.

Mas um dia, chegou um circo à esta terra. Diferente dos outros. Grandioso, com palhaços educados, que sorriam e chamavam para o espetáculo. O povo, cansado dos mesmos (bobos) palhaços e das palhaçadas que nada traziam de novo, entrou na fila, comprou bilhete, fez propaganda. Queriam ver coelhos a sair da cartola, e lobos em pele de cordeiros. Prometiam até o Gasparzinho. Pois bem...foi neste dia, que o atelier desmoronou, entristeceu. Baixou as persianas e encostou as portas.
Foi neste dia, que muitos sonhos enterraram-se dentro de nós. Foi neste dia que deixei de ter o direito de alinhavar os meus pedaços de retalhos, os meus planos.

Não se sabe bem o porque, e pelas ruas há confusão e desentendimento. Há balbúrdia. Há pobreza. Há gente infeliz e desacreditada. E o coelho continua a sair da cartola.
Agora, só se  pergunta por aí quando é que o circo vai embora. Mas, minha gente, o circo veio para ficar.
"Até quando, até quando, até quando..."
Sabem...é a primeira vez que vejo um circo que não condiz com o natal...

(Desculpem o desabafo! Sei que o cantinho é da M. , mas também é da mamã aqui...)

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