segunda-feira, 4 de março de 2013

Retrato datado de 1983

Família: O nosso grupo social primário. A nossa base, o nosso chão. O caminho e o caminhar. A pegada e o autor. O seguidor. O traço e a obra. O pulso que pulsa para sempre na nossa história. 

Que se excluam desde já, os percalços, as escolhas e os sentimentos que tentem contradizer a forma visceral como isto funciona. Não há volta a dar à questão. Não há como negar, bloquear: Somos aquilo que nos construímos, sumariamente, através do nosso clã. Somos, não somos? Não se pode remar contra esta maré, pois provavelmente, até a forma de o fazer, teve origem na origem.

Reza uma antiga lenda, que há um encontro pré-programado, criado apenas a fim de fazer e dar sentido à vida, que de outra forma, seria solitária e comedida. Esta narrativa de caráter maravilhoso, deformada pela imaginação popular, e embelezada pela invenção poética, diz que é possível a escolha dos nossos. Permite aos vivos portanto, que acreditem num início de tudo. Que acontece em um plano qualquer, onde os indivíduos de um mesmo agregado decidem trilhar um caminho comum. 

Para além das balelas, família é uma coisa profundamente engraçada de existir. Juntam-se feitios e cores, caretas e vozes...numa autêntica guerra de afetos. Partilham a mesa, o sofá, a cama. Misturam dramas, piadas, risos e lágrimas. Confissões, segredos, memórias. Estranhamente, Cohabitam, e ao fim do dia, voltam sempre para o mesmo encontro. 

Há aquelas, de raíz falsamente italiana, em que o silêncio é raro. Em que é possível saltar de um sorriso, à uma ligeira discussão, voltando mais uma vez a multiplicar sobremesas e palavras. Família é, definitivamente, o melhor que há no mundo. É bela no seu construir, no seu desenrolar, e no seu constante esforço por se fazer coesa, rija.

Quando as pessoas de um mesmo grupo primário estão bem, correm para o abraço, para as compras, para as refeições. Criam e recriam as salgalhadas diárias, tão particulares destes felizes bandos. 

Quando estão mal, repartem o copo do gelado, e entregam o peito para o conforto único, que só este amor conhece. São pernas que se entrelaçam em frente à TV, e que depois do desabafo, relaxam na felicidade tranquila deste laço. 

Também gritam quando o sapato lhes aperta, quando os nervos tomam conta. Discutem, agridem, desabam. Quase sempre, um "desculpa-me", em sussurro, resolve o estrago. Às vezes, nem é preciso...porque a seguir à família, foram criados os conceitos do perdão e da compreensão.

É...família é coisa rara. No sentido literal e estético da palavra. No sentido que se sente, saboreia, reconhece. Família é onde não há ajuda que se negue, gargalhada que não faça eco. Não há branco no branco, nem preto no preto. São contrastes que combinam, condizem, e não separam...porque apenas conjugam. Não há fronteira que afaste, e nem linhas imaginárias que impeçam o amor de renascer, renascer, renascer. Sempre numa corrente de renovação afetiva, que se traduz no bater de um coração que ferve pelo outro. 

Família é gente que se junta para encher as veias. Há as de sangue, há as de sentimento, e há as de papel. Há as que são escolhidas, e há as que nos oferecem de presente. Há as que são premeditadas, sonhadas, desenhadas ao pormenor...e há as que surgem no espaço de tempo de uma estrela cadente. 

São cores e corpos, apertos e afagos, espaços...oxigênio. Família é força motora...nos move e alimenta. Acrescenta, engrandece. É conjunto, junção. É unir, do início ao fim. São barrigas que geram barrigas, que plantam, semeiam, brotam e colhem...num profundo existir feliz.

Quando um se vai embora, deixa a ausência de consolo. Deixa gavetas cheias e por arrumar, que apenas por si, magoam a quem ficou. Deixa a roupa suja e o cheiro. Deixa os sapatos velhos, com a marca do marchar. Deixa as plantas por regar, o cão por passear, as contas por pagar. Deixa a palavra ainda não dita, a viagem por marcar, a camisola velha e gasta das quintas-feiras. Deixa por descobrir, o novo sentido que a vida terá de fazer. Deixa a dor e a saudade, bem ao lado do shampoo para cabelos encaracolados, do sabonete por acabar, e da escova de dentes comprada na passada semana.

Este é o ponto fraco da família, aquele que nenhuma delas se conseguirá livrar: a certeza da dor por acontecer, em nós ou no outro. E a dor, meus caros leitores...a dor é a maior delas, vivendo para sempre agarrada ao som silencioso da felicidade vivida.

Já cuidou da sua gente hoje?





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4 comentários:

  1. Crônica belíssima essa. Sempre soube que você escreve bem, mas os seus textos são muito mais bonitos do que eu imaginava.

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    1. Ow... :) assim eu fico convencida!hehehe
      beijo grande

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  2. Estou a espera do teu livro de crónicas. Tens de partilhar esta tua escrita tão poética, ritmada, madura e sensível de forma mais alargada. Será um presente para os leitores que te poderão ler para além do blog. Lindo o texto, um dos mais bonitos que já li. Parabéns!!!

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    1. Huuummm.que me dera! :D
      Quem sabe, quem sabe...
      Definitivamente, seria algo que iria adorar!
      Um beijinho grande, e obrigada! :)

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